JERUSALÉM
Em Jerusalém
meu amor
as noites são de alerta
e a dor assusta o vôo das corujas
em Jerusalém
meu amor
dorme-se pouco
que a angústia aperta
são breves as carícias
e os risos inquietos
semeiam medo ao raiar da aurora
o perfume da morte e os gritos da agonia
serpenteiam pelas ruas poeirentas sujas
como cães deixam marca
e vão embora
partem com rumo ao findar do dia
em Jerusalém
meu amor
ouço as notícias que daí me chegam
vindas de muito mais além do horizonte
um velho agoniza
lento
aqui defronte]e as sirenes não se calam
não sossegam
em Jerusalém
meu amor
sente-se o vento escaldante do deserto
e o sibilar das balas
lá ao longe
faz tremer de susto o missal do monge
há hienas que dançam aqui por perto
em Jerusalém
meu amor
só resta a esperança
num sorriso inocente de criança
JOSÉ MANUEL RESTIVO BRAZ, Porto, Portugal
seleção de texto: Flavio Alberoni, publicado na edição#3 do tablóide Café Literário, mai2002
Escrito por tablóide Café Literário às 10h58 AM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

CONFISSÃO
É você a flor que mais perfuma este jardim, onde apeio meu cavalo e guardo meus tesouros. É você, água de mandacaru, minha prenda maior que recebo ao término das guerras todas que já enfrentei... você, minha razão de vida e morte. Sorte sua que eu lhe cuido e mimo. Quer doce de jaca? Trago. Mas não me chama de querido que eu não gosto. Agora me faz um dengo e arrepia meus pêlos com esta língua travada com tanto caju, e me toma a alma que dela eu já não preciso. Aproveita e me leva as botas, que não preciso mais caminhar... troca por um bom par de meias velhas que estas são mais fáceis de pisar no chão de estrelas pontudas que mandei fazer pra você. Não, minha prenda, não vou mais pras guerras e pras matas. Agora que tenho tudo que quero, só falta ganhar de vez o teu amor e ficar por aqui nesta rede que balança a cada suspiro do vento. Mas por que, meu amor, minha prenda, minha flor de maracujá, em nome de Jesus, por que você derramou esta lagriminha por esses olhos que é por onde eu só enxergo o que tem de bom nesse mundo? Por onde é que se espalha esta dor tão funda que te arranca este lamento de bezerrinha desmamada? Eita que se não fala eu não sei o que fazer, minha flor... Olha que perco a paciência se não responde e te arranco à força a resposta... não brinca com quem já brigou com a Morte para chegar até aqui... responde, minha coisinha linda... não chora mais... ou chora mais que eu vou é te bater nesta cara de porcelana barata, vou te quebrar os braços, rasgar tua boca e arrancar tuas tripas... olha que eu vou...
― Pára, Felício, de brincar com a boneca de Marta... O doutor já está chegando... e tira essa fantasia de cangaceiro. Parece que não quer ter alta... E Felício sorri com o olho único, já que o outro foi perdido quando da sua morte lá pelos idos de não sei quando, pelos lados da Bahia... Angicos, eu acho... não sei que também já não lembro mais nada, desde que me arrancaram a cabeça...
Alba Negromonte, Recife, PE, Brasil
seleção de texto: Yara Affonso
texto publicado na edição nº 2 do tablóide Café Literário, mar.2002
Escrito por tablóide Café Literário às 7h29 PM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|