Café Literário


reprodução de fotografia escolhida por Rebecca N. Frassetto para ilustração de capa da edição#3, mai-jun 2002

 

Luz noturna solitária se ergue na vertical escuridão e registra no vazio, sóbrias notas de melancolia na mesa do bar. Blues. Uma mulher debruça o corpo na janela e beija a boca do mundo sem estrelas, abraça o olhar invisível e o desejo que umedece seus lábios com a língua dos ventos. Frio. Ela sente o calafrio da música subir-lhe o corpo, enquanto gritos se instalam no eco da neblina a misturar-se à fumaça do último cigarro que ele traga junto de seu sax. Cinzas ao chão. Louca, ela se joga em meio a um vôo de sentimentos perdidos, esquecidos na porta do bar. In-certezas de pousos, palavras musicadas na promessa de uma fantasia a rasgar-se no cansado corpo, faz com que ela se jogue nas profundezas de ruas e sons, em busca daquele amor que fuma a esperança no e-terno ritmo lento de ondas sonoras num mar de dedos em sopros a velejar em pautas pausadas atracadas às letras intactas que ele enterrou junto da sua última nota toca! da ao ar livre de versos transversos em duplos sonhosblues. Área isolada. Gotas de silêncio velam um corpo na surda esquina. Um sax rasga a noite num grito profundo de dor. Chove, e a luz se apaga.

Yara Affonso, texto publicado na edição#4 do Café Literário, ago 2002; seleção de texto por Eduardo Barrox



Escrito por tablóide Café Literário às 6h19 PM
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